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A farsa de Inês Pereira
Gil Vicente

Acredita-se que Gil Vicente tenha nascido por volta de 1465, mas sobre a sua vida pouco se sabe. Pode-se afirmar com certeza que viveu a vida palaciana como funcionário da corte e que possuía bons conhecimentos da língua portuguesa, bem como do castelhano, do latim e de assuntos teológicos.

Além de ter colaborado com Garcia de Resende na compilação do Cancioneiro Geral, Gil Vicente escreveu 44 peças, sendo 17 em português, 11 em castelhano e 16 bilíngües.

O teatro vicentino é basicamente caracterizado pela sátira, que critica o comportamento de todas as camadas sociais: a nobreza, o clero e o povo.

"A Farsa de Inês Pereira" é considerada a mais completa peça de Gil Vicente. Foi representada no Convento de Tomat em 1523. O tema é dado pelo seguinte provérbio: "Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube".

A obra pode ser dividida em cinco partes: a primeira é um retrato da rotina na qual se insere a protagonista; a segunda reflete a situação da mulher na sociedade da época, cujos registros são dados pela mãe de Inês, pelo própria Inês e por Lionor Vaz; a terceira mostra o comércio casamenteiro, representado pelos judeus comerciantes e pelo arranjo-mercantil de Inês com Brás da Mata; a quarta considera o casamento, o despertar para a realidade, contrapondo-a ao sonho que embalava as fantasias da protagonista e, finalmente, a quinta parte reflete a realidade bruta da qual Inês, experiente e vivida, procura tirar proveito próprio. A peça apresenta uma situação concreta, com uma personagem bem delineada psicologicamente e um fio condutor melhor configurado que as produções anteriores de Gil Vicente.

Personagens:

  • Inês Pereira - típica rapariga vicentina, leviana, ociosa, namoradeira.

  • Brás da Mata - falso escudeiro, tirano, ambicioso, galanteador.

  • Lionor Vaz - fofoqueira e alcoviteira.

  • Pero Marques - camponês rústico, provinciano, meio bobo, com boas intenções.

  • Mãe de Inês - religiosa.

  • Jatão e Vidal - judeus casamenteiros.

  • Fernando - pajem do escudeiro Brás de Mata.

O enredo é simples: uma jovem sonhadora, que passa o tempo todo diante do espelho, a se enfeitar, procura por um casamento nobre com um homem que saiba tanger viola, fugir à rotina doméstica. Por intermédio de Lionor Vaz, alcoviteira e casamenteira, recebe uma carta de um pretendente - Pero Marques, filho de um camponês rico, homem tolo e ingênuo. Inês admite conhecer pessoalmente a Pero Marques, que, com seu comportamento rústico, meio aparvalhado, é desprezado por Inês. Contra os conselhos da mãe e da alcoviteira, adeptas de um casamento com um homem rico, a rapariga (Inês) aceita se casar com Brás da Mata, escudeiro pobretão, apresentado a ela por dois judeus casamenteiros. Brás da Mata, representava tudo que Inês queria, era galanteador, dançava e cantava belissimamente. No entanto, os sonhos da heroína são logo desfeitos, porque o marido revela sua verdadeira personalidade, maltratando-a, explorando-a e trancando-a em casa a sete chaves. Brás da Mata parte para longe, como um cavaleiro, e deixa como guarda de Inês o pajem Fernando. Brás da Mata vem a falecer na África. A alcoviteira Lionor Vaz, fingindo-se sensibilizada pela ruína de Inês, apresenta novamente o pedido de casamento de Pero Marques. Inês, ensinada pela dura experiência, tomando consciência da realidade, aceita o pedido do antigo pretendente. No novo casamento Inês tem liberdade de ação. Disfarçado sob o hábito de religioso, um antigo pretendente de Inês, um falso ermitão, passa a assediá-la. Rapidamente, a jovem aceita a corte do falso ermitão. A farsa termina com o marido (cantado por ela como cuco, gamo e cervo que se podem traduzir ao pé da letra, por "cornudo", "animal chifrudo") levando-a às costas ao atravessarem um rio, sem que ela se molhasse, até a gruta em que vive o ermitão, para um encontro nada ingênuo.

Profª Sueli Miguel

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