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Vidas Secas
Graciliano Ramos
Comentários críticos
Graciliano Ramos foi um escritor extremamente
cuidadoso, quanto a forma de seus livros. Reescrevia seus livros sem
cessar, procurando retirar deles tudo aquilo que considerasse
excesso. De estilo enxuto, então, Graciliano sempre foi considerado
como exemplo de elegância e de elaboração.
É comum em suas obras o privilégio do substantivo
em relação ao adjetivo. Por isso, alguns críticos gostam de afirmar
que Graciliano deve ter se divertido muito quando, no romance
Caetés, a personagem recebe uma carta repleta de adjetivos,
denunciando o amor adúltero de sua esposa, Luísa.
Sua obra, apesar de centrar-se em determinada
região, transcende o pitoresco e o descritivo dos regionalistas
típicos da geração de 1930. Graciliano analisa profundamente a
relação do homem com o meio, explorando também o lado psicológico e
o lingüístico dessa relação.
Independente das limitações regionais, Graciliano
faz uma análise profunda da condição humana. Desse modo torna-se
universal.
Resumo da obra Vidas Secas
"Será um romance? É antes uma série de quadros,
de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza." (Lúcia
Miguel-Pereira)
Chamar este romance de "série de quadros, de
gravuras em madeira, talhada com precisão e firmeza" é aludir a um
de seus traços estilísticos fundamentais: o caráter autônomo e
completo de seus capítulos.
Estes podem ser lidos como peças independentes, e
como tal foram publicados em jornais, mas reúnem-se com uma
organicidade exemplar. Os capítulos de Vidas Secas mantêm uma
estrutura descontínua, não-linear, como que reafirmando o
isolamento, a instabilidade da família de retirantes: Fabiano, Sinhá
Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra
Baleia.
Formado por treze capítulos que se justapõem sem
nexos lógicos, o enredo de Vidas Secas organiza-se principal-mente
pela proximidade entre o primeiro Mudança - a chegada da família de
retirantes a uma velha fazenda abandonada e arruinada - e, o último,
Fuga - a saída da família, que, diante de um novo período de seca,
foge para o Sul.
Do capítulo 2 ao 12, a família vive como agregada
na fazenda, para cujo proprietário Fabiano trabalha. Assim, passa
uma fase de descanso, em relação ao seu nomadismo, provocado pela
seca.
No entanto, além da tortura gerada pela lembrança
do passado e pelo medo do futuro, o romance enfoca outras faces da
opressão que se exerce sobre os membros da família - seja entre eles
e os outros homens, os moradores da cidade, seja consigo próprios.
No capítulo, Cadeia, por exemplo, Fabiano vai à
cidade, bebe e joga com o soldado amarelo; quando resolve partir,
este o provoca e o leva à cadeia, onde é preso e surrado. Um ano
depois, Fabiano o reencontra, agora em seu território, a caatinga.
Embora deseje vingança, acaba se curvando e ensinando o caminho ao
sol-dado amarelo (cap. 11).
No episódio Contas (cap. 10), Fabiano é lesado
financeiramente pelo patrão. Embora as contas do patrão não
coincidam com as da Sinhá Vitória, que as confere, Fabiano não se
defende; ao contrário, humilha-se e pede desculpas.
Outro exemplo de opressão e de falta de
comunicação entre os seres da família animalizados pela miséria em
que vivem, encontra-se no capítulo 6, em que o menino mais velho
ouve a palavra inferno, acha-a bonita e procura aprender o seu
significado com a mãe, que o repele brutalmente. Já no capítulo 7,
Inverno, há uma cena em que a família se reúne numa noite de
inverno, e Fabiano tenta contar histórias incompreensíveis enquanto
os meninos passam frio.
Enfim, a questão central do romance não está nos
acontecimentos, mas nas criaturas que o povoam, nas gravuras de
madeira.
Com a análise psicológica do universo mental das
personagens, que expõem por meio de discurso indireto livre, o
narrador nos vai decifrando sua humanidade embotada, confundida com
a paisagem áspera do sertão, neste romance transcende o regionalismo
e seu contexto específico - a seca do Nordeste, a opressão dos
pobres, a condição animalesca em que vivem - para esculpir o ser
humano universal.
Opiniões sobre Vidas Secas
"O narrador não quer identificar-se ao
personagem, e por isso há na sua voz uma certa objetividade de
relator. Mas quer fazer as vezes do personagem, de modo que, sem
perder a própria identidade, sugere a dele. [...] É como se o
narrador fosse, não um intérprete mimético, mas alguém que institui
a humanidade de seres que a sociedade põe à margem, empurrando-os
para as fronteiras da animalidade. Aqui, a animalidade reage e
penetra pelo universo reservado, em geral, ao adulto civilizado"
(Antônio Cândido).
Na opinião de Antônio Cândido sobre o enredo de
Vidas Secas: "Este encontro do fim com o começo [...] forma um anel
de ferro, em cujo círculo sem saída se fecha a vida esmagada da
pobre família de retirantes-agregados-retirantes, mostrando que a
poderosa visão social de Graciliano Ramos neste livro não depende
[...] do fato de ele ter feito romance regionaliza ou romance
proletário. Mas do fato de ter sabido criar em todos os níveis,
desde o pormenor do discurso até o desenho geral da composição, os
modos literários de mostrar a visão dramática de um mundo
opressivo". (Antônio Cândido)
Resumo por capítulo
-
Mudança
Começando o livro, o narrador coloca diante do leitor o primeiro
quadro:
-
uma tomada à distância: a família no ambiente
da seca.
-
a caracterização de cada membro da família
pelas suas atitudes.
-
Fabiano
O narrador mostra a desintegração progressiva de Fabiano:
-
Fabiano e a vida
-
Fabiano e a seca
-
Fabiano, a família e a seca.
-
Cadeia
Continua o narrador a mostrar Fabiano diante da sociedade. Ele vai
comprar querosene: está com água. Vai comprar chita: é cara. É
levado ao jogo, não sabe se comunicar, e é preso.
-
Sinhá Vitória
A apresentação de Sinhá Vitória é semelhante à de Fabiano. Aparece
a sua dificuldade de relacionamento com os meninos, com a Baleia,
com Fabiano. Sua aspiração: ter uma cama.
-
Menino mais novo
Quer espantar o irmão e Baleia. Observa o pai montar a égua.
Fabiano cai, de pé. Ele vibra. Sinhá fica indiferente diante da
façanha do pai, ele não se conforma com a indiferença da mãe.
Tenta se comunicar com o pai, mas não consegue, fica chateado. A
Baleia dormia. Foi tentar conversar com a mãe, levou um cascudo.
Dorme, Sonha com um mundo adulto. No dia seguinte tenta montar o
bode, mas sai sem honra da façanha. Cai, leva coices.
-
Menino mais velho
Quer saber o que seja inferno. Sinhá Vitória fala em espetos
quentes, fogueiras. Ele lhe perguntou se vira. A mãe zanga-se,
achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. Baleia era o único
vivente que lhe mostra simpatia.
-
Inverno
Família reunida em torna do fogo. Não havia conversa, apenas
grunhidos. Ninguém entende ninguém, já são poucos humanos.
-
Festa
Iam à festa de Natal na cidade. Na cidade se vêem distantes da
civilização. Fabiano não fala, mas admira a loquacidade das
pessoas da cidade.
-
Baleia
A cachorra Baleia aparecera doente. Fabiano imaginara que ela
estivesse com hidrofobia, e amarrara-lhes no pescoço um rosário de
sabugo de milho queimado. Ela, de mal a pior. Resolvera matá-la.
-
Contas
Fabiano diante do imposto e da injustiça do patrão Nascera com
esse destino, ninguém era culpado por nascer com destino ruim.
-
O soldado amarelo
Fabiano ia corcunda, parecia farejar o solo, quando encontrou o
soldado amarelo. Lembrou-se do passado. Quis se vingar. Reviveu
todo o passado. Pensou e repensou sua condição. O soldado, antes
cheio de medo, vendo Fabiano acanalhado, ganha coragem, avançou,
pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de
couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo. "Governo
é governo."
-
O mundo coberto de
penas
Depois do inverno, de novo seca anunciada nas arribações. Fabiano
luta contra a natureza, atira nas arribações.
-
Fuga
O mesmo quadro do primeiro capítulo. No primeiro quadro os meninos
se arrastavam atrás dos pais, neste os pais se arrastam atrás dos
meninos. Os meninos corriam. Era o destino do Norte - O
(nor)destino.
Prof. Rafael Sarmento Resende
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