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Angústia
Graciliano Ramos
De todos os escritores nordestinos que se
revelaram por volta de 1930, Graciliano Ramos é, sem dúvida, o
romancista que soube exprimir, com maior agudeza, a dura realidade
do homem nordestino sem se deixar encantar pelo pitoresco da região.
Fazendo com que o psicológico prevalecesse sobre o social, o que
Graciliano investiga é o homem vivendo o drama irreproduzível de seu
destino, ou seja, o homem universal. Graciliano é tido como o autor
que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações
homem/meio natural, homem/meio social, tensão essa geradora de um
conflito imenso, capaz de moldar personalidades e de transfigurar o
que os homens têm de bom. Nesse contexto violento, a morte é uma
constante; é o final trágico e irreversível, decorrente de
relacionamentos impraticáveis. Ao tematizar o homem e sua
desestruturação, acaba por trazer uma espécie primitiva, muitas
vezes indiferente aos acontecimentos que o cercam, quase um autômato
a viver grotescamente como animal.
"Angústia" é o segundo romance do que chamamos
"ciclo memorialístico" de Graciliano Ramos, inesquecível, complexo e
perturbador, não há nele divisão estrutural em capítulos: é escrito
como um fluxo confessional , um relato de mea culpa de um homem
desesperado.
Angústia contrapõe o homem irracional,
direcionado pelos instintos, ao homem social em busca e na defesa
incessante de valores-pequeno-burgueses; por fim, resta a
consciência que o homem tem de que a realidade é bastante diferente
do que ele pretendia. Sob a ótica da vulgaridade interpretativa,
Angústia poderia ser resumido como o relato de um crime cometido por
um intelectual, Luís da Silva, um homicídio contra o rival, Julião
Tavares, que lhe roubara a mulher amada, Marina, às vésperas de um
casamento planejado.
Narrado em 1ª pessoa, Luís da Silva, o
protagonista, vive mediocremente, engaveta escritos, não progride
nem em sua vida profissional , carregando o fardo de ser um reles
funcionário público, nem em sua vida afetiva, mantendo um noivado
prolongado pela falta de condições para a efetivação do casamento.
Marina, a noiva, acaba se envolvendo com Julião Tavares, verme,
escorregadio, rico, gordo, vermelho e suado. Ao perceber os fatos
que o rodeiam, Luís da Silva vive um clima de pesadelo.
Impossibilitado de conviver com sua rotina sem novidade e
desmotivada, passa a conviver com um crescente ciúme; e amargurado,
vai nutrindo impulso de assassino que o levam, de fato, a
estrangular o rival.
É o fluxo das lembranças desordenadas que mais dá
trabalho ao leitor: o pensamento navega solto, ao sabor das
lembranças que se hierarquizam de acordo com o valor que se dá a
elas. Não são somente os acontecimentos atuais que ele revolve: é o
conjunto terrível de suas lembranças de homem que se confundem: a
infância desolada, o isolamento, o sentimento da inferioridade, as
necessidades físicas, as urgências emocionais.
O romance parece ser pura memória, uma espécie de
diário onde se registram de maneira caótica, alucinada e aleatória
os fatos que magoaram o narrador. Some-se a isso a culpa que sente
pelo ato cometido e, por fim, acrescente-se a tudo a mágoa que pouco
a pouco se transforma em rancor contra a mulher que um dia amou e
quis para si.
Em Angústia, o narrador tudo invade e incorpora a
sua substância (monólogo interior) que transborda sobre o mundo.
Torna-se, o romance, um diário que a personagem escreve
posteriormente. A memória se desdobra em ziguezague. O seu método é
o da confusão psicanalítica, uma palavra que explica a outra, um
pensamento que esclarece o outro. E também o da associação de
idéias: uma idéia que atrai a outra idéia, uma lembrança que sugere
outra lembrança.
PERSONAGENS:
- Luís da Silva - narrador - personagem. Um homem
com os nervos em frangalhos, 35 anos, um homem feio: olhos baixos,
nariz grosso, um sorriso besta, atrapalhado, funcionário público.
- Marina - é uma mulher vulgar, ambiciosa, aparece
como a vizinha do narrador, por quem ele se apaixona.
- Julião Tavares - rico, gordo, bacharel, metido a
patriota. Falava bem, seduzia as moças pobres, abandonando-as
depois.
- Sr. Ramalho - pai de Marina, um homem decente,
sistemático; torna-se amigo de Luís e avisa-o de que a filha não é
"grande coisa".
- Dona Adélia - mãe de Marina, queixa-se de tudo e
é a responsável, (segundo Luís), pela perdição da filha
(estimula-a a casar-se com Julião, quando descobre que ele é
rico).
- Sr. Ivo - alma infeliz, que vaga pela rua, bebe
muito. É dele que o narrador recebe como presente a corda com a
qual enforcará Julião.
- Moisés - judeu amigo de Luís. É credor de Luís,
mas tem vergonha de cobrar o amigo. Moisés é socialista e
pessimista.
- Vitória - empregada de Luís, tem 50 anos, é um
pouco surda, feia, tem como costume enterrar moedas no quintal, à
noite.
Profª Sueli Miguel
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