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O bom crioulo
Adolfo Caminha
Adolfo Caminha está inserido no Naturalismo,
vertente realista que se preocupa em denunciar o perfil moral das
criaturas em sociedade. Considerado um dos mais perfeitos exemplos
do Naturalismo, "O Bom Crioulo" defende a tese determinista, segundo
a qual o homem deve ser retratado dentro de um ambiente pernicioso e
podre, decorrendo daí seu caráter enfraquecido e perverso, sua falta
de travas morais, sua perversão, principalmente sexual, causadora de
seqüelas irreversíveis como a bestialização, a insanidade ou a
degradação.
Em "O Bom Crioulo", pela primeira vez na
Literatura Brasileira, é tratado o tema do homossexualismo, tendo
como foco a vida dos marinheiros. O tema narrativo acontece no final
do século XIX e a narração é linear, rompida às vezes com alguns
flash-backs, rememorações ou digressões. O foco narrativo é em 3ª
pessoa, que relata de maneira objetiva os fatos, fazendo a denúncia
social de maneira isenta e impessoal.
Num tempo em que a Abolição não fora proclamada ,
Amaro, aos 18 anos, ingressa na Marinha. Os oficiais o estimavam
pelo caráter bom e modos ingênuos, por isso é que recebeu o apelido
de Bom - Crioulo. Ganhou fama, na Marinha, de negro forte, puro
músculo. Inquietava-se a figura de um certo comandante Albuquerque,
que protegia os marinheiros robustos. Durante uma viagem em que fora
nomeado gajeiro (encarregado) de proa, pôs-se em contato com a
cachaça. Nessas horas, saía de si, ficava violento de tal forma que
os demais o temiam. Foi nessa viagem que conheceu o grumete Aleixo
(tem15 anos, pequeno, louro, olhos azuis, formas rechonchudas e ar
provocador). A partir daí Aleixo não sai da cabeça de Amaro. O
desejo de posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo
da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a
fêmea, sentiu-se o Bom Crioulo, ao cruzar a vista pela primeira vez
com o grumete. Estava sendo devastadoramente levado pela paixão
homossexual. Tornam-se amantes.
Ao aportarem no Rio de Janeiro, Amaro vai
procurar sua amiga, Dona Carolina (antiga prostituta, vivia de
alugar quartos) e ali encontra para ele e Aleixo um quartinho
aconchegante. Toda vez que o navio atracava, Aleixo e Amaro desciam
a terra e estavam sempre no quartinho.
Amaro vai servir em outra embarcação. Aleixo
sente-se aliviado, pois andava se aborrecendo daquilo tudo.
Carolina, prostituta, mulher excessivamente
carente que nunca havia conhecido o amor desinteressado, é atraída
pelo espírito infantil de Aleixo, pelos olhos azuis e puros.
Aproveita-se da situação e passa a ser sua amante, amiga e transpõem
para Aleixo todo seu coração reprimido pelas cruezas da vida, ama-o
como mulher e como mãe, uma vez que ela não tivera a oportunidade de
gerar filhos.
Aqui está formado o triângulo amoroso que
culminará na morte de Aleixo.
O ciúme interfere nesse singular triângulo
amoroso, fazendo Amaro agir irracionalmente, como um animal diante
do instinto selvagem, destruindo a sua única razão de ser e de
viver.
Ambientado preferencialmente no mar, o romance de
Adolfo Caminha é a síntese da perversão sexual, descrita de modo
ousado, chocante; toda sua dinâmica repousa sobre a capacidade
descritiva do narrador que relata minuciosamente e com fidelidade os
aspectos cruéis de uma fria realidade.
Profª Sueli Miguel
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