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Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Análise do episódio: Inês de Castro
Canto III, 118 a 135

No Renascimento, o projeto de recriar os grandes gêneros da literatura greco-latina levou muitos poetas, em diversos países, a tentarem compor obras no que era considerado o gênero máximo: o épico. A epopéia (ou poema épico) é um longo poema narrativo, de estilo elevado e assunto heróico, envolvendo grandes acontecimentos do passado. Se os heróis e as façanhas são históricos ou míticos esta não é uma questão significativa para a épica antiga.

Mas era um ponto importante para Camões, que se orgulhou de estar contando em "Os Lusíadas" (1572) uma história grandiosa realmente ocorrida, verdadeira, e não falsa, inventada, como as dos heróis míticos celebrados tanto pelos gregos e romanos da Antiguidade, quanto pelos poetas de seu tempo. A estes teria faltado um tema da magnitude daquele que a história recente de Portugal oferecia a Camões: a estupenda aventura da conquista do mar e busca de terras distantes e ignoradas, que ampliaram enormemente os limites do mundo então conhecido. Com uma história dessas, com seu gênio artístico e uma extraordinária experiência de vida, Camões escreveu a melhor epopéia do Renascimento.

Nela, três histórias se superpõem e se imbricam:

1) a história da viagem de Vasco da Gama e seus marinheiros à Índia;

2) a história de Portugal, chegando até a época da viagem e antecipando acontecimentos posteriores a ela, e

3) a história dos deuses que, como forças do destino, tramam e destramam a sorte daqueles bravos portugueses que enfrentam perigos e inimigos desconhecidos para ampliar as fronteiras de seu reino e de sua religião.
Numa longa etapa da obra (cantos III-V), Vasco da Gama (herói da história 1) conta ao rei de Melinde (costa oriental da África) a história de Portugal (história 2). Entre os acontecimentos notáveis do passado português, o capitão se detém no relato dos eventos que envolveram Inês de Castro, compondo um dos mais belos episódios do poema (canto III, estrofes 118-135). Trágico conto de amor, é a história daquela "que depois de ser morta foi rainha".

O fato relatado por Camões foi registrado por cronistas da época e pode, em seus dados históricos, ser assim resumido. Dona Inês, da importantíssima família castelhana Castro, veio a Portugal como dama de companhia da princesa Constança, noiva de D. Pedro, herdeiro do rei D. Afonso 4º. O príncipe apaixonou-se loucamente pela moça, de quem teve filhos ainda em vida da princesa, sua esposa. Com a morte desta, em 1435, ter-se-ia casado clandestinamente com Inês, segundo o que ele mesmo declarou tempos depois, quando já se tornara rei. Talvez tal declaração, embora solene, fosse falsa; é fato, porém, que o príncipe rejeitou diversos casamentos, politicamente convenientes, que lhe foram propostos depois que ficou viúvo.

A ligação entre o príncipe e sua amante não foi bem vista pelo rei, que temia fosse seu filho envolvido em manobras pró-Castela da família de Pérez de Castro, pai de Inês. (Aqui é preciso lembrar que o conflito entre Portugal e Castela, ou seja, a Espanha, remonta à fundação de Portugal, que nasceu de um desmembramento do território castelhano e que Castela sempre almejou reintegrar a si.) Em conseqüência, o rei, estimulado por seus conselheiros, decidiu-se pelo assassinato de Inês, que foi degolada quando o príncipe se achava caçando fora de Coimbra, onde vivia o casal. O crime motivou um longo conflito entre o príncipe e o pai. Depois que se tornou rei, D. Pedro ordenou a exumação (desenterramento) do cadáver, para que Inês fosse coroada como rainha.

Camões, que se concentra no conflito entre o amor e os poderes perversos do mundo, não é o único nem foi o primeiro a dar tratamento literário à história de Inês de Castro, mas a sua versão paira sobre todas as outras, anteriores ou posteriores. Vários fatores concorrem para que o episódio seja dos mais admirados de "Os Lusíadas": a pungência da história, devida tanto à piedade que inspiram Inês e seus filhos, quanto ao amor constante, inconformado e revoltado de D. Pedro; a gravidade da questão envolvida, que opõe o interesse pessoal e os interesses coletivos (a "razão de Estado"), e, finalmente e sobretudo, o encanto lírico de que Camões cercou a figura de Inês, a quem atribui longo e eloqüente discurso, impondo-a como um dos grandes símbolos femininos da literatura e não só da literatura de língua portuguesa.

Prof. Rafael Sarmento Resende

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