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Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Análise do episódio: O Velho do Restelo
Canto IV, 90 a 104
Já vimos, em artigo anterior, que Vasco da Gama,
herói de "Os Lusíadas" (1572), de Camões, conta ao rei de Melinde
(África) a história de seu país (cantos III e IV). Na parte final de
seu relato, Vasco fala-lhe de sua própria viagem. No início dela,
situa-se um dos episódios mais célebres da obra: o Velho do Restelo
(canto IV, estrofes 94-104). O sentido do discurso atribuído ao
Velho é bastante claro; não obstante, o episódio coloca alguns
problemas quanto ao pensamento do poeta relativamente à questão
tratada.
Os navios portugueses estão prestes a largar;
esposas, filhos, mães, pais e amigos dos marinheiros apinham-se na
praia (do Restelo) para dar seu adeus, envolto em muitas lágrimas e
lamentos, àqueles que partiam para perigos inimagináveis e talvez
para não mais voltar. No meio desse ambiente emocionado, destaca-se
a figura imponente de um velho que, com sua "voz pesada", ouvida até
nos navios, faz um discurso veemente, condenando aquela aventura
insana, impelida, segundo ele, pela cobiça -o desejo de riquezas,
poder, fama. Diz o velho que, para ir enfrentar desnecessariamente
perigos desconhecidos, os portugueses abandonavam os perigos
urgentes de seu país, ainda ameaçado pelos mouros e no qual já se
instalava a desorganização social que decorreu das grandes
navegações.
Segundo parece, o velho representa a opinião
conservadora (alguns diriam "reacionária") da época -opinião da
aldeia, do torrão natal, da vida segura, mas não heróica. Seria
estranho que Camões se identificasse com esse tipo de atitude, pois,
como observou J. F. Valverde, "não seria compreensível que
compusesse uma epopéia para celebrar o que condenava como erro
fatal". Mas, segundo se pode inferir de diversos elementos do
discurso do Velho, assim como do resto do poema, a opinião expressa
no admirável discurso não era inteiramente rejeitada por Camões, por
mais que ele fosse empolgado pelo empreendimento marítimo de seu
país. Como o Velho do Restelo pensavam muitos naqueles tempos, assim
como muitos pensam hoje em relação a assuntos semelhantes (como a
conquista espacial ou a manipulação genética, por exemplo). Gil
Vicente, que tratou de assunto semelhante, em chave cômica, no "Auto
da Índia", poderia subscrever as palavras daquele "velho de aspecto
venerando".
O discurso do Velho contém uma condenação
enfática da guerra, de acordo com o ponto de vista do Humanismo, que
era antibelicista. Mas o Velho, como Camões, abre exceção (sob a
forma de concessão) para a guerra na África (lembremos que o poeta,
no início e no fim do poema, recomenda enfaticamente a D. Sebastião
que embarque nessa aventura). Sabemos que havia, na época, uma
corrente de opinião em Portugal que condenava a política ultramarina
do país, direcionada desde D. João 3º em favor da Índia, com o
abandono das conquistas africanas.
Portanto, o Velho do Restelo não é propriamente
uma voz discordante a que o poeta concede um lugar em seu poema,
representando nele simplesmente os rumores do povo ou o ponto de
vista de um partido adversário da empresa que o poeta se punha a
celebrar. A fala do Velho é também a expressão de idéias camonianas,
divididas entre o Humanismo pacifista e o belicismo dos ideais da
Cavalaria e das Cruzadas, cujo espírito muito influenciou a visão
camoniana da missão de seu país.
O discurso do Velho do Restelo corresponde a um
gênero antigo da literatura, cultivado desde os primórdios da poesia
grega. Trata-se do gênero conhecido pelos gregos como propemptikón,
ou seja, "adeus a um viajante que parte". Elementos básicos para uma
composição deste gênero são 1º) o viajante (no caso, Vasco da Gama e
os seus marinheiros), 2º) quem se despede (o Velho), 3º) a relação
que os une (no caso, o fato de serem portugueses) e 4º) o cenário
apropriado para a despedida (a praia do Restelo, com os navios a
ponto de largar). Neste tipo de poema há alguns assuntos constantes
(lugares-comuns): os perigos e as in-conveniências da viagem, os
perigos do lugar de destino, considerações sobre os motivos da
viagem, a quebra de fé implicada na viagem etc. Uma das modalidades
desse gênero inclui o que em grego se chamava skhetliasmós, isto é,
uma reclamação ou lamentação, cuja finalidade é, condenando a
viagem, persuadir o viajante a desistir de fazê-la.
Diversos desses elementos se encontram no
discurso do Velho, organizados com formidável eloqüência, reto-mando
virtuosisticamente e com novidade um gênero de poesia que remonta a
Homero.
Prof. Rafael Sarmento Resende
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