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O Primo Basílio
Eça de Queirós
Publicado em 1878, o romance O Primo Basílio é
uma análise muito bem realizada acerca do casamento e do
comportamento burguês. Bastante influenciado por Madame Bovary, de
Gustave Flaubert, Eça de Queirós tem em Emma Bovary o modelo para a
construção de Luísa, personagem frágil, sonhadora, romântica.
Luísa casara-se com o engenheiro Jorge, apesar de
não amá-lo. Tendo que viajar para o Alentejo, Jorge deixa a esposa
em Lisboa, sozinha, entregue a uma vida de tédio, pois Luísa não tem
nenhuma ocupação. Um dia, recebe a visita de seu primo Basílio,
antigo namorado, recém-chegado do Brasil. Tornam-se amantes em pouco
tempo, encontrando-se freqüentemente em um quarto alugado
especialmente para esse fim amoroso.
Logo a criada Juliana descobre o relacionamento e
intercepta a correspondência da patroa, escondendo as cartas
comprometedoras de Luísa a Basílio. A criada passa a fazer chantagem
com a patroa, e Luísa, desesperada, propõe a Basílio que fujam. Este
não aceita a proposta da amante e parte sozinho para Paris.
À mercê da empregada, Luísa torna-se pouco a
pouco uma verdadeira presa nas mãos de Juliana: é obrigada a fazer o
serviço doméstico em lugar da criada e sua situação fica
insustentável.
Jorge retorna do Alentejo e estranha bastante a
situação da esposa. Luísa, desesperada, procura o amigo Sebastião e
pede-lhe ajuda. Sebastião pressiona Juliana e recupera as cartas
comprometedoras. A criada morre. Luísa fica doente em seguida. Um
dia recebe uma carta de Basílio, que Jorge lê e toma conhecimento
das relações entre a esposa e o primo. Quase convalescente, a moça
tem uma recaída, delirando e entrando em estado irrecuperável.
Termina por falecer.
Breves Comentários
Em O Primo Basílio, encontramos uma análise dos
mecanismos do casamento e do comportamento da pequena burguesia
lisboeta.
Eça deixa transparecer que escreve com o objetivo
social, ao atacar a família lisboeta, que para ele é produto do
namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem e, ao
atacar a pequena burguesia, através de um grupo social alicerçado em
falsas bases no meio da transformação moderna.
No decorrer da história o narrador nos mostra
como se deu o casamento de Luísa e Jorge : Quanto a Jorge : "Ele,
nunca fora sentimental (...) Quando a sua mãe morreu, porém, começou
a achar-se só (...) Decidiu casar. Conheceu Luísa, no verão (...)
Apaixonou-se pelos seus cabelos louros, pela sua maneira de andar,
pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi
despachado, e casou."
E assim esse casamento sem maiores raízes,
naufraga no adultério com a aproximação de um vulgar sedutor, o
primo Basílio; o primeiro namoro de Luísa.
O Moralismo do Realismo Português
Eça de Queiroz não é apenas um analista (como
propunha o realismo) nem apenas um artista, mas também um moralista.
Possuía uma finalidade ética e social a atingir,
afirmando que "uma sociedade sobre estas falsas bases (analisadas no
Primo Basílio), não está na verdade : atacá-las é um dever (...)
Amaro é um empecilho, mas os Acácios, os Ernestos, os Saavedras, os
Basílios são formidáveis empecilhos; são uma bem bonita causa de
anarquia no meio da transformação moderna : merecem partilhar com o
Padre Amaro de bengala do homem de bem."
Neste trecho acima, percebemos claramente, o
objetivo social, altruístico, com intuitos essencialmente morais.
Entretanto, os psicanalistas observam que "as
exigências morais do Super-Ego são satisfeitas por esse tom social
altruístico e tornam possível a volta do recalcado, sob essa forma
modificada."
Diante dessa afirmação, será que Eça ao tratar do
seu mais íntimo e profundo problema não tenha colocado o moralismo,
justamente, para censurar a si mesmo ?
Em O Primo Basílio encontramos a necessidade de
se trabalhar pela moralização da sociedade portuguesa,
principalmente através da crítica que se faz à pequena burguesia e à
família. Como Eça disse : "... uma sociedade sobre falsas bases ..."
Muitas de suas personagens estão destituídas de
força moral. O Cons. Acácio, por exemplo, que representando o
"formalismo oficial", mantém um relacionamento, secreto, com a sua
criada Leopoldina que representa a parte má que existe na alma da
mulher e, também, a Luísa que, entregue à fantasia sentimental, é
totalmente destituída de consciência moral, predispondo-se ao
adultério.
Luísa adoece, com uma inesperada febre nervosa.
Jorge toma conhecimento das relações da esposa com o primo, através
de uma carta. Quanto Jorge mostra a carta a Luísa, esta, num gesto
romântico, estatela-se ao chão
Tanto é assim, que quando doente, nos momentos de
lucidez, Luísa pedia a presença do marido ao seu lado: é o lado
moralizador do realismo português.
E, a morte de Luísa, é também muito
significativa. Diante da tese desenvolvida em O Primo Basílio,
achou-se necessário, como conclusão, castigar a heroína. O Castigo
foi a morte.
Eça, como crítico, muitas vezes impiedoso, da
sociedade portuguesa, sentiu a necessidade de reformas sociais, por
isso, a tudo moralizou.
Eça de Queirós não é apenas um analista (como
propunha o Realismo) nem apenas um artista.
Um Moralista
Possuía uma finalidade ética e social a atingir :
"Uma sociedade sobre estas falsas bases (analisadas no Primo
Basílio), não está na verdade : atacá-las é um dever."
Portanto, escreve com um objetivo social,
altruístico, com intuitos essencialmente morais.
O consciente de Eça trabalha pela moralização da
sociedade portuguesa, por isso, é um crítico impiedoso da sociedade
portuguesa e sente a necessidade de reforma sociais.
Resumo:
É domingo. Jorge e Luísa encontram-se no quarto
de dormir, em um momento de intimidade. Ele fuma um cigarro e
considera, contrafeito, os aborrecimentos de uma viagem à serviço
que deverá fazer no dia seguinte a Alentejo. Ela, ainda de roupão,
lê o Diário de Notícias.
O casamento dos dois não é resultado de nenhuma
grande paixão; encontra-se, antes, fundado no desejo de organização
da vida quotidiana: Jorge sente-se só após a morte da mãe; Luísa
realizou o desejo de toda moça solteira, assumindo a posição de
mulher casada. Não obstante, ambos vivem bem. Ele encontrou o
carinho do qual necessitava e ela tem, afinal, seu homem. Ao mesmo
tempo que apresenta esse mundo pacato, o narrador anuncia a chegada
do personagem que o irá destruir. Luísa lê a notícia que seu primo
Basílio está visitando Lisboa após longo tempo de ausência.
Mal ela comenta com o marido a novidade, entra
outra personagem fundamental para a trama, Juliana, a criada de
dentro. Luísa não esconde sua antipatia pela figura e já a teria
despedido há muito, se Jorge não teimasse em mantê-la, em gratidão
por ela ter cuidado de uma tia enferma.
À tarde, Leopoldina, amiga de infância de Luísa,
vem vê-la. A visita provoca uma pequena tempestade familiar. Jorge
não quer Leopoldina em sua casa, considera-a má companhia. A amiga
tem de fato uma justa fama de possuir muitos amantes. Mas a rusga é
breve. Luísa cede às razões do marido, este se acalma ao ver sua
autoridade garantida.
Apaziguam-se os ânimos. Luísa gasta a tarde entre
a leitura do final do romance A Dama das Camélias e as lembranças de
seu namoro com o primo, interrompido quando ele partira para o
Brasil, a fim de tentar resgatar a fortuna perdida com a falência de
uma firma. Na época, ela tinha 17 anos e, sofrendo com a separação,
caíra de cama com febre. Depois, conhecera Jorge e não pensara mais
no assunto.
O domingo termina. Como sempre, alguns amigos
visitam o casal. Julião Zuzarte, parente afastado de Jorge, é um
médico mal sucedido, que destila amargura em cada comentário e olha
com inveja a prata do aparador. D. Felicidade, nos seus cinqüenta
anos, arde de paixão e perturba-se sensualmente ante o lustro da
careca do Conselheiro Acácio, um homem sério e cheio de cerimônias,
sempre pronto a fazer um discurso oficial em favor da família, da
pátria e da moral. Pura hipocrisia, já que sua "moral" não o impede
de viver em concubinato com sua criada.
Presente está também o primo Ernestinho Ledesma,
um escritor que começa a fazer sucesso e encontra-se, nesse momento,
às voltas com a criação da peça Honra e paixão, na qual, uma esposa,
para salvar o marido de ser preso por uma dívida de jogo, recorre ao
conde de Monte-Redondo, que intercede e entrega aos guardas a
quantia devida, justamente no momento em que o homem está sendo
preso. O marido, no entanto, percebendo que a mulher e o conde se
amam, devolve o dinheiro e mata a mulher. O problema de Ernestinho é
que o editor entende que o público deve sair do teatro alegre, exige
um final menos trágico, e o autor vacila. Todos discutem que destino
deve ser dado à personagem. Jorge exige que o primo siga os
princípios da família e mate a adúltera sem piedade. Por essa
posição intransigente, todos chamam Jorge de "Otelo".
O último a chegar à reunião é o melhor amigo de
Jorge, Sebastião, o único também a se diferenciar do grupo: pessoa
sensível, simples, íntegra. Goza tanta confiança de Jorge, que este
lhe pede para que controle as visitas de Leopoldina a Luísa durante
sua ausência.
Doze dias após partida de Jorge, Luísa recebe a
visita de Basílio, que fica impressionado com a beleza da prima. O
encontro é carregado de sentimentalismo, principalmente porque
Basílio não deixa nunca de se referir aos velhos tempos do namoro,
segundo ele, o único tempo feliz de sua vida. Cauteloso, ele
entremeia as alusões amorosas com histórias de suas viagens pelo
mundo e de pessoas ilustres com quem conviveu. Dessa forma, quando
Luísa cora com a inconveniência das alusões ao passado, ele a
distrai e seduz com o relato de suas experiências exóticas. Ao final
da entrevista, valendo-se da condição de parente, ele deposita um
demorado beijo na mão de Luísa.
Basílio parte. Embora Luísa passe o dia pensando
nas boas qualidades de Jorge, na sua boa vida de casada, a imagem do
ex-namorado persiste, sugerindo uma outra existência, mais poética,
mais própria para os grandes sentimentos. Mal sabe ela que Basílio
também está feliz. Ficou na dúvida em visitar a prima, mas agora que
a tinha visto, compara-a com a amante que deixara em Paris, magra
demais, e decide que as formas arredondadas da prima valem uma
aventura. Tudo parecia pronto para o adultério.
A presença de Basílio deixa Juliana alvoroçada.
Ela, na esperança de viver dias melhores, anda sempre à procura de
algum segredo, de algum escândalo de suas patroas.
A história de Juliana é triste. Filha de uma
engomadeira e um degredado, está acostumada a trabalhar desde cedo,
sem alcançar nenhum progresso. Feia demais para atrair o desejo de
um homem, acabou solteira. Assim, quando a mãe morre, fica sem
ninguém no mundo.
Juliana é orgulhosa. Já serve há vinte anos e não
se acostuma a servir. Juntara, penosamente, dinheiro para abrir um
negocinho, o sonho de sua vida, mas uma doença levou-lhe cada uma
das moedas e toda a esperança, que só voltou quando a tia de Jorge,
viúva e rica, adoeceu. Mas, apesar de ter suportado o mau humor da
velha durante meses, desmanchando-se em cuidados, não chegou sequer
a ser citada no testamento. Foi antes promovida a criada de dentro,
o que lhe deu oportunidade de ver os estofados das casa serem
trocados com a parte da herança que ficou com Jorge. Como se não
bastasse, Juliana sofre do coração. A revolta ruminada durante anos
tornou-a má, invejosa, quase incapaz de disfarçar seu ódio pelas
patroas. Por isso, passa a espreitar cada movimento de Luísa, com a
intenção de descobrir algum crime do qual pudesse tirar vantagem.
O que se passa na visita do primo, por detrás das
portas fechadas, fica vedado a Joana e ao leitor. Mas à noite, Luísa
sai ao passeio com D. Felicidade, onde se dá um encontro "casual"
entre ela e o primo. Na tarde seguinte, os dois se reencontram. Vai
à casa também Julião. O resultado é catastrófico. Não bastasse
sentir-se diminuído pelos trajes de Basílio, Julião percebe que
Luísa está visivelmente constrangida com sua aparência.
Impiedosamente, Basílio passa a pedir notícias de gente ilustre,
pessoas completamente fora do círculo de Julião, que sai de cena
arrasado. Aparece também o Conselheiro, para uma pequena visita. Com
ele, Basílio é amável e distante, levemente superior. Dá-se entre os
dois uma educada divergência de opiniões: Basílio critica Portugal,
o Conselheiro defende a terra. A discussão é encerrada com Basílio
cantando, acompanhado por Luísa ao piano. Enquanto canta, encara a
prima de maneira tão emocionada e sedutora, que ela perde os
compassos da música. O Conselheiro deixa a casa encantado. Não
percebeu a comoção entre os dois, não percebeu também o desprezo de
Basílio que, comparando-o a Julião, tem apenas o seguinte comentário
elogioso a fazer: "este, pelo menos, é limpo".
Mal sai o Conselheiro, Basílio atira-se sobre
Luísa, tentando beijá-la. Ela se assusta, resiste, fraqueja e acaba
se irritando. Reconhecendo que foi muito apressado, muda de tática.
Diz amá-la castamente, envolve seus sentimentos de espiritualidade e
retira-se com a garantia de um novo encontro.
Naquela noite, Luísa recebe uma carta de Jorge.
Tomada de culpa, decide interromper aquelas visitas familiares. Mas
tão logo pensa em não ver o primo, adivinha o sofrimento do rapaz
sozinho no hotel, infeliz e pálido; pondera o teor fraternal e casto
do relacionamento, transforma Basílio em um personagem tão parecido
com um herói romântico, tão adorável, tão infeliz, tão puro, que
acaba beijando o travesseiro, pensando nos fios de cabelos brancos
do primo, ganhos, segundo ele, com as saudades que sentiu dela.
Sebastião esteve na casa de Luísa por três vezes
e por três vezes não conseguiu vê-la, pois Basílio estava sempre com
Luísa e ele intimidou-se. Era verdade que Basílio era primo, o que
garantiria certa decência nessas visitas, mas a fama de farrista,
irresponsável, e conquistador de Basílio preocupa Sebastião. Além
disso, já há falatórios na rua.
Sebastião angustia-se. Vai pedir conselhos a
Julião, cujos comentários grosseiros só o constrangem. Decide,
então, falar com Luísa. Mas quando está chegando na casa, vê Basílio
entrando, ouve os comentários maliciosos dos comerciantes da rua e
recua.
Lá dentro, Basílio tenta, sem sucesso, convencer
Luísa a fazer um passeio ao campo. Como ela resiste, muda de
estratégia. No dia seguinte, diverte-a com canções, anedotas,
histórias de paixões adúlteras das parisienses. Não faz juras, não
insiste e comunica que está pensando em partir. O resultado é
imediato: é Luísa quem lembra o passeio e os dois fazem alguns
planos.
Mas, no dia seguinte, Basílio não aparece.
Exasperada, Luísa inicia um bilhete para mandar ao hotel, mas tem
que enfiá-lo às pressas no bolso do vestido. Sebastião acaba de
chegar para alertá-la sobre os mexericos. Encolerizada, a princípio,
ela acaba por cair em si e agradecer.
Sai Sebastião, chega Leopoldina para o jantar.
Elogia o amante e reclama da posição subalterna da mulher na
sociedade. Os contra-argumentos morais de Luzia são frouxos. No
fundo, ela também está orgulhosa de ter seu amante.
Já tarde da noite, Basílio faz uma entrada
tempestuosa na sala de visitas. Exausta emocionalmente de esperá-lo
durante todo o dia, temerosa de perdê-lo, Luísa deixa-se seduzir. De
volta ao hotel, Basílio procura Reinaldo, colega de viagem que tem
exigido mais rapidez na conquista para que possam prosseguir viagem,
e informa, triunfante: finalmente, a prima está caída.
No manhã seguinte, Juliana encontra o bilhete no
bolso do vestido, mas controla-se e não o tira dali. Luísa recebe
uma carta de Basílio, com retumbantes declarações de amor, escritas
no hotel, entre dois copos de cerveja e a leitura preguiçosa de uma
revista. Emocionada, beija a carta: a primeira carta de amor que
recebe, como nos romances. É preciso responder. Inicia com um "Meu
adorado Basílio". Está no auge de suas confissões, quando D.
Felicidade irrompe sala a dentro. Aterrorizada, Luísa amassa o
papel, joga-o no lixo e leva a outra para o quarto. Quando volta,
Juliana já terminara a limpeza da sala e jogara o conteúdo do lixo.
Luísa fica desesperada. Percebe o perigo. Lembra do bilhete no bolso
do vestido e vai verificar. Como o encontra lá, tranqüiliza-se. Crê
que a carta teria sido jogada fora. Juliana é quem está esperançosa
de conseguir a oportunidade por que sempre esperara: chegará a hora
de exigir uma recompensa por guardar segredo do adultério da patroa.
Luísa não pensa mais no assunto, mesmo porque uma
mensagem vinda do hotel avisa-a do endereço do ninho de amor que
Basílio providenciou para se encontrarem e que batizou de Paraíso.
Ela vai ao encontro. Está excitada com a aventura. No caminho,
lembra de um romance em que o herói forra de cetim e tapeçarias o
interior de um casebre miserável, para receber a amante. Mas quando
chega ao local depara-se com um quarto úmido num sobrado pobre e mal
cheiroso. Apesar dessa decepção, vai para lá todo dia, enquanto
Juliana agüenta com boa cara o aumento vertiginoso de roupas de
baixo para lavar e passar.
Mas tantas saída só podem causar mexericos na
vizinhança. Onde irá "a do engenheiro" todo santo dia? O que salva
Luísa é D. Felicidade torcer o pé e ir parar na Encarnação.
Sebastião encontra neste fato a explicação para as saídas
constantes. Sua delicadeza o leva a um gesto protetor: como quem não
quer nada, informa o Paula, comerciante de língua feroz, que D.
Luísa vai todo dia visitar D. Felicidade, que se encontra doente. É
o suficiente: aos olhos da vizinhança, ela passa de adúltera para
exemplo de caridade.
De fato, alertada pelos elogios que Sebastião lhe
dá pela assiduidade com que vê a amiga, Luísa passa mesmo a ir à
Encarnação antes de dirigir-se ao Paraíso.
A casa de Jorge entra em fase de grande harmonia.
Satisfeita, a patroa não implica com as empregadas. Joana, a criada
de fora, recebe o amante nas horas mais calmas, enquanto Juliana sai
quantas vezes precisa para ir ao médico ou a tia Vitória, uma
inculcadeira que a está orientando a sobrinha em como proceder para
tirar partido do segredo de Luísa.
Já no Paraíso, as coisas começam a ir mal.
Basílio mostra-se cada vez menos disposto a manter as atenções da
primeira fase da conquista. Tem momentos de rudeza. Há brigas, mas
há reconciliações ardorosas e a relação, mesmo abalada, continua.
Um dia, Luísa encontra o Conselheiro Acácio na
rua. O homem gruda-lhe nos calcanhares com tal insistência, que ela
acaba por perder o encontro no Paraíso. Volta para casa furiosa e
despeja sua raiva em Juliana, que reage: "a senhora saiba que nem
todas as cartas foram para o lixo". A cena é violenta. Juliana passa
muito mal do coração. Luísa desmaia. Quando volta a si, só vê uma
saída: fugir com Basílio. Ao arrumar a mala, percebe que um baú fora
arrombado e mais duas cartas roubadas. Enquanto isso, Juliana vai
procurar a tia Vitória, que lhe diz como agir: mandarão um
mensageiro até o hotel com cópias das cartas e exigirão um conto de
réis.
Basílio só fica ao par da situação no Paraíso,
mas nega-se a fugir com Luísa. Adivinha a chantagem e até se dispõe
a pagar, desde que não seja ele a negociar com a mulher para evitar
mais extorsão. Luísa fica fora de si. Nega-se a receber o dinheiro e
vai embora.
Já no hotel, Basílio acata o conselho de
Reinaldo: devem partir imediatamente para Madri. Ainda há um último
encontro. Luísa entende a situação e nega-se a receber o dinheiro.
Basílio parte.
Juliana, que estivera sumida, reaparece furiosa.
O amante fugiu, mas ela quer seus 600 mil réis ou mostra a carta a
Jorge.
Luísa vê em Sebastião sua única saída e manda
chamá-lo. Ele vem feliz: Jorge escreveu para ambos. Infelizmente,
ele troca as cartas e ela acaba sabendo de algumas conquistas
amorosas do marido. Luísa irrita-se, constrange-se de falar de suas
necessidades com o amigo do marido e o vê indo embora sem ter
resolvido nada.
Sempre aconselhada pela tia Vitória, Juliana
resolve ser mais política. Afinal, de nada lhe adianta delatar a
outra e ficar de mãos abanando. Escreve um bilhete para a patroa
desculpando-se e comprometendo-se a fazer seu serviço corretamente
enquanto espera o dinheiro. Luzia escreve a Basílio, mas não tem
resposta. Sebastião viajou. Jorge está para chegar e Luísa consegue
um prazo maior com Juliana. Ela tenta até mesmo recuperar as cartas,
abrindo o baú de Juliana num momento em que a empregada saíra. Mas é
claro que Juliana teria guardado os papéis em lugar bem mais seguro.
Enquanto procura ganhar tempo e conseguir o
dinheiro, Luísa vai ficando à mercê das exigências da criada. A
situação piora com a chegada de Jorge, que começa a estranhar o
comportamento de Juliana e a condescendência de Luísa para com a
criada. Um vestido de seda usado, saídas livres, a mudança para o
"quarto dos baús", local espaçoso onde Jorge guarda suas malas.
Depois, é uma esteira para cobrir o chão, depois uma cômoda para a
roupa, depois camisas de baixo para encher a cômoda e, afinal,
roupas de sair, que Luísa tinge, para que Jorge não note. Joana, a
criada de fora, sente-se preterida e Luísa, para não ter desavenças
dentro de casa, vai também cobrindo de agrados a outra.
Graças aos esforços de Luísa, mais uma vez, a
casa está tranqüila. Agora que pode servir-se melhor da comida,
Juliana supervisiona os pratos e trata de deixar as camisas de Jorge
absolutamente engomadas. Mas Luísa vive desesperada. Sua esperança é
que o aneurisma de que sofre Juliana estoure repentinamente. Mais do
que nunca, sente-se apaixonada pelo marido e teme perdê-lo.
A fase cooperativa de Juliana dura pouco. Ela
começa diminuir sua carga de trabalho. Para que Jorge não note o
desleixo, Luísa passa a fazer o serviço escondido.
As provocações aumentam até que Luísa,
desesperada, procura Leopoldina. A sugestão da amiga é que ela se
deixe seduzir pelo Castro, um banqueiro que é louco por ela, e
arranje o dinheiro necessário. Mas Luísa não concorda.
Um dia, Juliana passa mal e cai desmaiada. É a
doença do coração que está agindo. Julião alerta para a
possibilidade de eles ficarem com uma inválida em casa, melhor seria
desfazer-se dela. Jorge decide despedir Juliana, sem saber que está
encurralando a mulher. Era certo que Juliana contaria tudo se se
sentisse ameaçada de perder o emprego. Luísa não vê outra
alternativa: teria de ceder ao Castro. Leopoldina arranja o
encontro, mas na hora de entregar-se, Luísa é tomada de tal repulsa,
que acaba chicoteando o banqueiro. Volta-se à estaca zero.
Uma tarde, Jorge chega do trabalho mais cedo e dá
com a Juliana lendo jornal na sala, enquanto Luísa engoma nos
fundos. Fica irritado com a mulher, mas dado o estado nervoso dela,
cala-se. Mas dias depois, estando a criada ausente na hora de servir
a refeição, Jorge explode e a despede.
Mal ele sai, estoura uma verdadeira guerra na
casa. Juliana ofende Luísa e é agredida por Joana, que já há tempos
está irritada com seus maus modos com a patroa. Juliana exige que a
outra seja despedida, mas Joana, sentindo-se injustiçada, ameaça ir
queixar-se ao patrão. Luísa chora e pede à criada que parta. Então,
corre para a casa de Sebastião e conta-lhe tudo.
Entendendo perfeitamente a situação, Sebastião
providencia ingressos para a ópera Fausto, de forma a deixar o campo
livre. Enquanto a família está fora, vai a casa na companhia de um
policial e esclarece a situação com Juliana: ou entrega a carta, ou
está presa. Vendo-se obrigada a ceder, a mulher é acometida de tal
crise de ódio, que o aneurisma estoura e cai morta.
Tudo parece ter entrado nos eixos. No entanto,
presa de tantas comoções, Luísa começa a ter febre. Em uma das
manhãs em que ela está febril, chega carta de Paris. Ocupado em ir
buscar o Julião, Jorge enfia-a no bolso e esquece. O médico
diagnostica uma excitação nervosa e recomenda que não se contrarie a
doente. Já é tarde da noite quando Jorge lembra-se da carta. É de
Basílio, explicando por que ainda não mandara o dinheiro,
colocando-se à disposição e relembrando as boas manhãs passadas no
Paraíso. Diante da notícia da traição da esposa, Jorge chora.
Para não piorar a doença da esposa, controla-se.
Durante toda a convalescença, vela por ela atormentado pelo ciúme.
Conforme melhora, Luísa cobre-o de carinho e ele deseja perdoá-la e
esquecer. Mas não é capaz e mostra-lhe a carta. Luísa tem uma
síncope. Inicia-se uma febre que derrota todos os esforços dos
médicos. Ela falece e deixa Jorge completamente aniquilado.
Na noite do enterro, cada e personagem ocupa-se
de uma maneira. Jorge e Sebastião choram. Julião lê uma revista
estendido num sofá. Leopoldina dança numa festa do Cunha. Acácio
deita-se com a amante. Dona Felicidade, informada do caso do
Conselheiro, prepara-se para se recolher à Encarnação.
Pela manhã, Basílio, que chegara há pouco em
Lisboa, encontra-se na frente da casa de Luísa. Tinha desejos de
reativar o Paraíso. Fica realmente abatido quando sabe que ela
faleceu. Até porque, confiando em reatar o caso com a prima, não
trouxera com ele a amante Alphonsine.
Personagens:
-
Dona Felicidade - representa a
figura materna, simpatiza-se com Basílio
Acácio - figura paterna, destituída de força moral, simpatiza-se
com Basílio
-
Leopoldina - representa a parte
má que existe na alma da mulher
-
Jorge - irmão que ama
honestamente - uma parte do irmão que protege
-
Sebastião - a outra parte do
irmão que protege, linguagem do sentimento, protetor inconsciente,
sabe que atrás daquele namoro se aninha um impulso incestuoso.
-
Basílio - figura do romancista
"alto, delgado, um ar de fidalgo, o pequeno bigode preto
levantado...", impulso sexual ilegítimo, irmão que deseja
(leviano)
-
Juliana - censura corrompida (usa
de chantagem)
-
Julião - potência consciente,
linguagem da lógica, linguagem natural da consciência, não vê mais
que um simples adultério, pouco lhe importa o que possa suceder
entre Luísa e Basílio - Basílio o irrita.
-
Luísa - mulher romântica,
sonhadora, frágil : "É mulher, é muito mulher... Não tem coragem
para nada...", comportamento romântico que a predispõe ao
adultério.
Prof. Rafael Sarmento Resende
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